A Bunda do Alceu

Uma manhã, o Alceu descia no elevador quando viu, pelo espelho da parede, que o vizinho do sétimo estava olhando para a sua bunda. Não havia dúvida, ele estava olhando mesmo. Era um olhar guloso, de quem queria aquela bunda. A bunda dele!

O vizinho não tinha como saber que Alceu o flagrara, o espelho ficava pendurado em cima da porta, num ângulo em que permitia a observação de quem se posicionava no lugar do Alceu e em nenhum outro ponto do elevador. Durante a lenta viagem até o térreo, portanto, Alceu pôde constatar como o outro admirava a sua bunda, uma admiração intensa, concentrada, quase apaixonada.

Alceu sentiu-se constrangido. Corou. Pensou em virar-se de frente para o outro e encará-lo, mas aí ele perceberia que tinha sido visto, e Alceu não queria que isso acontecesse. Afinal, já havia outras pessoas no elevador, inclusive a loira do quinto. Se ele se voltasse para encarar o vizinho do sétimo seria muito… homossexual… Não, Alceu não podia protestar. Mas sentia-se invadido por aquele olhar, sentia-se, sabe-se lá, violado.

O outro não parava de olhar. Olhava com vontade. Alceu pensou na própria bunda. Seria uma bunda feminina? Empinada? Até então, Alceu achava sua bunda normal. Uma bunda como todas as outras. Só que aquele olhar não era um olhar que se dedica a uma bunda normal. Teria Alceu engordado e sua bunda crescido? Estaria ele com um bundão? O que poderia significar isso? Será que outros homens cobiçavam sua bunda? E as mulheres?

Alceu estava perturbado. O elevador enfim chegou ao térreo, as pessoas começaram a se movimentar para sair. O vizinho do sétimo continuava olhando para sua bunda. Não parava de olhar. E, quando Alceu se moveu, o homem… suspirou. Ele suspirou de desejo pela bunda dele! Aquilo, a princípio, enfureceu Alceu. Por pouco ele não girou nos calcanhares, desferiu-lhe um tapa na cara e gritou:

_ Tarado!

Por pouco. Mas, depois, Alceu se conformou. Pensou: então minha bunda é bonita? Nunca havia pensado que uma parte do seu corpo podia ser desejada por outras pessoas. Uma bunda bonita, quem diria? Foi a vez de Alceu suspirar. Com o suspiro entre os dentes, saiu do elevador. E se foi pelo saguão do edifício. Rebolando.

 

David Coimbra

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Poema

” Em tempos em que quase ninguém se olha nos olhos, em que a maioria das pessoas pouco se interessa pelo que não lhe diz respeito, só mesmo agradecendo àqueles que percebem nossas descrenças, indecisões, suspeitas, tudo o que nos paralisa, e gastam um pouco da sua energia conosco, insistindo.

Martha Medeiros “

Dr. Alegria

Patch Adams está em Porto Alegre e ensina que o riso não é o melhor remédio

Famoso médico norte-americano palestrou para médicos, enfermeiros e estudantes de medicina, no Hospital São Lucas da PUCRS

 

Um auditório cheio de jalecos brancos aplaude de pé um médico que veste calças de estampa floral e camisa de bolinhas coloridas. Hunter Doherty Adams, mais conhecido pelo apelido, Patch (que significa “remendo”), age como um palhaço, todos os dias, há 50 anos.

Nesta terça-feira, ele arrancou risos de médicos, enfermeiros e estudantes de medicina, no Hospital São Lucas da PUCRS. Mas apesar de ter se especializado em fazer as pessoas rirem, Patch Adams afirma que rir não é o melhor remédio. A amizade é. O riso é apenas uma graxa que lubrifica as relações.

Magricela, nerd e filho de militar, Patch cresceu no sul dos Estados Unidos em uma época em que o país vivia a Guerra do Vietnã e os negros estudavam em escolas separadas dos brancos. Não fazia muito sucesso com as meninas e era alvo fácil para os rapazes brigões. Chegou a tentar o suicídio quando adolescente e foi parar em um sanatório. Vem de lá a lição de que quem tem companhia não precisa de Prosac. “O humor salvou a minha vida”, diz ele, que abriu uma clínica para tratar doentes mentais sem usar medicamentos.

 

Para aprender a ter graça — e mudar outras vidas —, durante dois anos, passou tardes em um elevador de Washingon e fez muitas ligações para telefones desconhecidos. A cena reconstituída com a participação de um médico da plateia deve mudar o teor dos encontros nos elevadores do hospital.

Já os telefonemas estão cada vez mais raros na era da conectividade, embora Patch ainda utilize meios tradicionais para se comunicar — responde mais de 600 cartas por mês. Olhar nos olhos, tocar, sorrir, abraçar são dos meios mais tradicionais de interação que existem. E foi com um abraço coletivo que ele se despediu do público, depois de duas horas intercalando falas de crítica à guerra e ao capitalismo e performances inusitadas sobre como o humor pode tornar o cotidiano mais saudável. Se rir não é o melhor remédio, pelo menos é uma porta de entrada para o contato com o outro, caminho para uma vida sem dor.

A Velha

Ela era uma velha, mas bem gostosa.

Quer dizer, não exatamente velha. Não uma anciã, se é que me entende. Mas não era guriazinha, nem era o que se pode chamar de mulher madura. Já passava dos 50, acho. Mas tinha umas pernas compridas e torneadas e uma bunda redonda e dura. E uma cinturinha, cara! E uns peititos pequenos, mas empinados. A velha estava sem sutiã, acredita? E vestia uma daquelas calças coladas de academia. Devia estar saindo da academia, ou indo para a academia, não sei, não perguntei. Só sei que era bem, mas bem gostosa.

Muito gostosa.

Admirei-a. A vida é mesmo cheia de surpresas.

Via-se que era velha por causa do pescoço enrugado. A pele já não apresentava o viço que uma mulher apresenta aos 20, aos 30, até aos 40 anos. Fiquei imaginando aquela velha com um quarto de século a menos. Nossa, que maquineta deveria ser! Ela se portava como uma gostosa, andava pelo súper com jeito de gostosa. É, eu estava no súper quando a vi. Empurrando carrinho.

Não consegui evitar: comecei a seguir aquela velha. Quanto mais a observava nas gôndolas de leite em pó, nas de produtos de limpeza, nas de ervilha em lata, quanto mais olhava para aquela velha, mais atração sentia por ela. Uma velha daquelas devia ser muito boa de cama, meu Deus! Devia saber o que fazer com um homem, sim senhor.

Quantos homens ela saciou? Quantos homens a teriam desejado?

E o melhor: uma mulher daquelas, com aquela experiência, já sabia tudo o que uma mulher deve saber. Não esperava mais ser surpreendida. Assim, eu poderia fazer uma abordagem direta. Aproximar-me dela e ronronar-lhe ao pé do ouvido:

“Quero sair daqui agora e passar a tarde na cama com você”.

Ela decerto apreciaria tamanha ousadia. Era uma mulher capaz disso. Desenharia no rosto um meio sorriso e ordenaria, que ela devia ser de ordenar:

“Siga o meu carrinho”.

Sairíamos do súper direto para o melhor motel da cidade. Só pararíamos de nos amar quando a noite chegasse. Então, cada um entraria no seu carro e voltaria para sua casa, para o seu casamento, para a sua vida comezinha, sem nem saber o nome um do outro, mas compartilhando um segredo, uma tarde especial. Uma tarde única para pessoas únicas.

Uma loucura dessas só seria possível com uma mulher que já não tivesse ilusões na vida. Com uma velha.

Ah, a vida é mesmo cheia de surpresas.

Parecia maluquice da minha parte, mas por que não? Por que não ser arrojado pelo menos uma vez na existência? O que eu tinha a perder? E, olha, a velha já havia notado que a observava. Nossos olhares meio que se cruzaram no balcão do salame italiano e quando peguei o queijo ralado.

Eu tinha que fazer aquilo. Tinha! No máximo, ouviria um não como resposta. E pronto. Nunca mais a veria, não correria riscos.

Só que duvido que ela me desse um não. Afinal, uma velha daquelas devia estar ansiosa por homem, sobretudo por um homem mais jovem. Além do mais, eu aqui, modestamente, não sou de se jogar fora. Tenho meus atributos, claro que tenho.

Decidi tentar.

Aumentei a velocidade do carrinho, fui me aproximando, me aproximando. Cada vez mais, cada vez mais. Ela dobrou a esquina de uma gôndola e sumiu no outro corredor. Um casal de gordos com dois carrinhos e um filho gordo sentado em cada carrinho atrapalhou minha evolução. Não conseguia passar, pedi licença. Os gordos enfim se afastaram, todos eles, e fui.

E fui e fui e fui.

Ela estava parada lá na outra ponta do corredor, examinando uma mercadoria qualquer. Não havia ninguém por perto. O ambiente tornara-se perfeito para a abordagem.

Fui.

Mas fui que fui, fui mesmo, com coragem. Com coragem!

Meu coração palpitava na garganta, estava nervoso, mas resolvido. Eu ia abordá-la. Ia realmente, meeen!!!

Estacionei meu carrinho ao lado do dela. Armei um sorrisão. Cheguei perto. Bem perto. Ela estava perfumada. Ah, velha, minha velha… Abri a boca para lhe fazer a proposta. Ela se virou. Encarou-me. Sorriu. Belo sorriso. Um sorriso de promessas. Enchi os pulmões de ar.

E então vi o produto que ela tinha nas mãos: um pacote de fraldas geriátricas.

Fraldas geriátricas!

Imaginei coisas horríveis. Coisas degradantes.

O sorriso dela continuava lá, impávido. Ela miou:

“Sim?”

Eu:

“Sabe onde tem saponáceo?”

Ela me deu a informação, um pouco desnorteada. Fui embora sem olhar para trás. A vida é mesmo cheia de surpresas.

A Gorda

O lance é que aquela gorda estava de minissaia, esse é que é o lance.

Uma gorda de minissaia.

E, vou dizer, ela era realmente gorda. Uma gorda porca, uma baleia, uma hipopótama, uma bota, uma elefanta, uma vaca, uma monstra de gorda desse tamanhão, uma gorda que entalaria num barril, uma gorda que não podia usar botas, porque nenhum cano de bota entraria na batatona da perna dela, mas que gorda bem gordona, aquela gorda.

Só que ela estava de minissaia.

E tem outra: eu havia bebido um pouco. Talvez tivesse bebido muito. É, na verdade eu estava muito bêbado, eu mal conseguia me manter em pé e aí vi aquela gorda. Ou, melhor, vi as pernas da gorda. Eram boas pernas, juro que eram. Lisas e compridas e taludas. Ela estava mostrando aquelas pernas de gorda dela, aí me aproximei da gorda e pensei: vou pegar essa gorda hoje, vou mesmo, pouco me importa, eu quero é uma gorda bem gordona essa noite na minha cama, é isso que eu quero, eu quero me lambuzar nessa banha toda e quero fazer essa gorda uivar, sim, senhor.

Então cheguei na gorda. Sentei ao lado dela e balbuciei:

“E aiam, gatchinha…”

E a gordona revirou os olhos e olhou para cima e resmungou:

“Cai fora, seu magricela!”

E foi-se embora, rebolando aquele rabo gordo, me deixando ali sentado, todo mundo rindo de mim no bar, todo mundo apontando para o magro bebum que tinha sido rechaçado pela gorda de minissaia.

Cara, a gente não pode mesmo dar confiança para uma gorda.